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segunda-feira, 18 de março de 2013

Pesquisador aponta aumento de depressão, assédio e cocaína entre jornalistas


Crédito:Divulgação/FGV
José Roberto Heloani

Desde 2003, José Roberto Heloani investiga a interface entre saúde e a profissão jornalística. Naquele ano, o doutor em psicologia e professor titular da Universidade de Campinas (Unicamp) entrevistou cerca de 20 jornalistas do eixo Rio-São Paulo, com foco em qualidade de vida.
Após estudo intermediário de 2005 - com espaço amostral ampliado para mais de 70 profissionais - concluiu em 2012 o mais recente deles, com mais de 250 jornalistas, aprofundando temas como saúde mental, identidade e subjetividade, e incidência de assédio moral e sexual.

Suas conclusões são duras. De dez anos para cá, aumentam entre os profissionais da área as incidências de depressão, infidelidade conjugal e uso de drogas, principalmente, cocaína e anfetamina, além do fenômeno que ele chama de "naturalização do assédio". 

"Hoje, no país, há cerca de seis grandes grupos de comunicação. Ou seja, o jornalista precisa ter muita coragem para fazer uma denúncia formal de assédio se quiser permanecer no mercado. Além disso, trocar de profissão, quando desejado, não é fácil.” 

Outro problema apontado por Heloani é a distância entre a experiência real e a representatividade social da profissão. "Enquanto a imagem do jornalista é idealizada e positiva na sociedade, sua vivência diária é precarizada. Isso os torna mais inseguros e frustrados". 

Confira a íntegra da entrevista à IMPRENSA:

IMPRENSA – Quais foram as novidades da última pesquisa?
ROBERTO HELOANI – Os casos de assédio moral e sexual tornaram-se mais rotineiros, embora já existissem. Mas, o problema vai além. Se, em outras categorias profissionais, o grau de denúncias de assédio tem aumentado – como a dos bancários, por exemplo, que acompanho há muitos anos –, no jornalismo, o assédio aumentou, mas o número de pessoas que recorrem à Justiça diminuiu.

Isso pode ter a ver a competição acirrada do mercado jornalístico?
Não tenho nenhuma dúvida disso. No Brasil, há seis grandes grupos de comunicação. Você precisa ter muito coragem para fazer uma denúncia formal de assédio se quiser permanecer no mercado. A pessoa pode até pensar em mudar de área, ir para assessoria ou área acadêmica, mas nenhuma alternativa é fácil. 

O que suas pesquisas revelaram sobre o estresse? 
Hoje, o jornalista é um profissional multifocal. O que pode parecer muito interessante, mas, na prática, as coisas não são bem assim. É um profissional que se tornou muito mais estressado do que era. Primeiro, ele não pode dominar só uma mídia. Ele é um profissional que precisa ser repórter, fotógrafo, motorista, às vezes, cuidar da própria segurança. Então, hoje, há maior incidência de um estresse patológico. Na primeira pesquisa, não víamos muita gente em estado de pré-exaustão ou exaustão, que é o caso mais grave. Na mais recente, começamos a ver pessoas debilitadas, em pré-exaustão, inclusive recorrendo mais a drogas lícitas e ilícitas.

Aumento de que ordem? Quais drogas, especificamente?
Apesar de ser difícil estabalecer um percentual, diria que aumentou cerca de 25%. O álcool é a droga mais recorrente, além de café e energético em alta medida. O problema é que aumentou o uso de drogas estimulantes, como cocaína e anfetamina. É uma forma de o cara conseguir escrever quatro ou cinco matérias em veículos diferentes, dormir três ou quatro horas, e dar conta do recado. Muitas vezes, sem tempo de ir ao psicólogo ou ao médico, o cara ouve falar de alguém que conseguiu ter um pique legal com “uma cheirada numa carreira” e aí ele perde o pé. É cada vez maior o número de pessoas que trabalham intoxicadas.

Como as dificuldades da profissão têm impactado a esfera pessoal e familiar dos profissionais?
Se há uma coisa que não se altera nas três pesquisas que realizei é que as mulheres, principalmente, queixam-se muito de como a profissão reflete na relação familiar e na relação com o companheiro. Primeiro, elas se queixam que não é fácil namorar com alguém que não seja da área. Começa a pintar ciúmes ou a convivência se torna muito esporádica. Já vi muitos jornalistas que só se encontram no aeroporto. 

Então, pode-se dizer que a profissão jornalística dificulta uma relação estável e fiel?
Muito. Mas, a queixa dessas pessoas é que elas, justamente, não querem isso. Elas querem um relacionamento, um companheiro. Não é questão de moralismo, mas o patológico está no fato de que a pessoa não quer trair. Se a pessoa está satisfeita com isso, pode até ser saudável. Mas, quando você se queixa disso – porque não é o que você quer, mas o que você pode fazer –, aí você começa a afetar a esfera subjetiva e, a longo prazo, até a saúde mental.

Investigou também a identidade e subjetividade do jornalista. O que concluiu?
O jornalista continua tendo uma identidade idealizada. Se você perguntar à população o que ela pensa sobre o jornalista, vai se falar que é um sujeito que denuncia, que sabe das coisas, enfim, a representação social é positiva. Por outro lado, a identidade real deste jornalista, sua vida concreta, é precarizada. Então há um gap, uma distância muito grande entre a identidade pessoal a representatividade social. Isso torna o jornalista muito inseguro e frustrado. 

Quais as consequências disso?
Ele se sente decepcionando com toda a população que o idealiza. Na última pesquisa, ficou muito clara a questão da culpa. Com a dificuldade na carreira, a pessoa começa, em sua narrativa pessoal, a puxar fatos do passado que são pueris. "Ah, eu me lembro que um redator me chamou para trabalhar e eu não fui." E isso dura anos. Ou seja, é infantil. Aí ele pode cair numa armadilha de achar que cometeu um erro estratégico no passado. E, agora, com maiores sacrifícios, ele decola. É uma maneira de ele pagar uma conta que ele tem com ele mesmo. A gente chama isso de dívida psíquica. É aí que ele se arrebenta para valer. 

Há saída para atenuar todos esses aspectos de tensão?
Deixar a profissão não é tão simples, demanda um planejamento a longo prazo. A única maneira de diminuir isso é começar a dialogar mais sobre isso, e nisso os sindicatos da categoria têm um papel importante. É uma categoria que continua sendo muito desunida.

A fraqueza política dos sindicatos tem a ver com isso?
Acho que contribui. É uma situação complexa porque, na medida em que as pessoas acabam não acreditando no poder das associações, estas associações acabam se tornando fracas. Uma associação não é uma abstração. Como eu não colaboro, a associação continua sendo fraca e ineficaz. Como não há uma correlação positiva de forças com essas grandes corporações que estabelecem o modo de vida do jornalista, elas trabalham totalmente independente da legislação. A legislação é clara: são cinco horas, mais duas. Mas eu nunca vi um caso de um jeito trabalhando sete horas. Eu vi 10, 12, 14 horas. Essas organizações acabam atuando à revelia da legislação. Ou você começa discutir isso para valer, ou não muda nada. Até porque a nova geração de jornalistas têm, realmente, aceitado qualquer jogo.

Fonte: http://portalimprensa.uol.com.br -Guilherme Sardas

Márcia Canêdo

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terça-feira, 12 de março de 2013

50 Tons de Tabu


Há muito tempo não via um livro dar tanta polêmica quanto a Trilogia dos 50 Tons tem gerado nos últimos meses. Muitos anos atrás “A Dama das Camélias”, publicado em 1848, um romance do escritor Alexandre Dumas Filho causou frisson entre as moçoilas  e esposas na época de sua publicação. A história tem cunho autobiográfico, Dumas Filho inspirou-se em suas próprias relações com a cortesã Marie Duplessis, e ainda no fato de ser ele próprio filho ilegítimo de Alexandre Dumas. Experimentando a rejeição, encontrou ao lado da amante a estabilidade que necessitava, e que veio a ser-lhe o mote para o romance. O nome Dama das Camélias é devido ao fato de Margarita gostar de receber apenas um tipo de flor, a camélia. A obra é ambientada na revolução de 1848, na França. Retrata o romance entre Margarita Gautier, a mais cobiçada cortesã parisiense, e Armando Duval, um jovem estudante de Direito. O jovem Armando pertence à uma família aristocrática da Paris do século XIX. Ele apaixona-se pela cortesã Margarita. Mesmo diante da intolerância de sua família e do preconceito social, eles tentarão viver sua história de amor.

Posteriormente em 1857, Madame Bovary , um romance escrito por Gustave Flaubert resultou num escândalo ao ser publicado. Quando o livro foi lançado, houve na França um grande  interesse pelo romance, pois levou seu autor a julgamento acusado de ofensa à moral e à religião.  O romance contava a história de Emma, uma mulher sonhadora pequeno-burguesa, criada no campo. Bonita e requintada para os padrões provincianos casa-se com Charles, um médico do interior muito apaixonado pela esposa, porém uma pessoa entediante. Nem mesmo o nascimento da filha dá alegria ao casamento ao qual a protagonista se sente presa. Emma, cada vez mais angustiada e frustrada, acaba encontrando no adultério uma forma de encontrar a liberdade e a felicidade. Apesar da intensa procura de uma vida digna, e o fato dela não se dar valor, dificilmente consegue sentir-se satisfeita com o que é e o que tem.

Em 2011 quem revolucionou o mundo da literatura foi o romance erótico bestseller da autora inglesa Erika Leonard James de nome 50 Tons de Cinza, primeiro livro de uma trilogia. A obra vem deixando homens alvoroçados que não entendem o fenômeno Christian Grey que fez com que o livro vendesse mais de 10 milhões de cópias mas primeiras seis semanas.  Publicado em 47 países, sendo no Brasil pela Editora Intrínseca a obra retrata a vida de Anastasia Steele, uma virgem de 21 anos estudante de Literatura que, após entrevistar o magnata para o jornal da faculdade, se interessa pelo mesmo e é correspondida. Com uma trama que se desenrola em Seattle,  em meio ao luxo, a protagonista  descobre, por meio de Christian Grey, o mundo do sadomasoquismo, descrito através de uma linguagem simples próprias dos romances. A autora mostra no decorrer da história detalhes da prática de  bondage,  sadismo e masoquismo.

Porém antes de simplesmente ser considerado um livro erótico, o que vem incomodando a muita gente são as quebras de tabus que muitos insistem em manter. Seria o caso que a pessoa até pode praticar as técnicas descritas no livro só que escondido para que ninguém fique sabendo, o que retrata a hipocrisia tão arraigada em nossa sociedade machista. Na realidade a obra nada mais que retrata um romance insólito entre um homem bonito, extremamente rico e bem sucedido em seu trabalho e uma jovem inacreditavelmente virgem aos 21 anos e recém-saída da faculdade e vinda da classe média. Trazendo para o mundo real este romance teria mínimas chances de dar certo, mas a função do livro não é justamente nos levar a viajar sem sair do lugar?! Então qual o problema se este romance não daria certo fora das páginas e de nossa imaginação??!! Christian Grey é simplesmente o homem dos sonhos de todas as mulheres (ou pelo menos de 9 em 10 mulheres...rsrs) , não é a toa que a trilogia foi escrita por uma mulher e o sucesso que vem fazendo se deve ao fato dele fazer o máximo para agradar a “mocinha da história”. Até mesmo a pegada erótica que vem incomodando tanto aos homens de modo geral, é o objeto de desejo das mulheres sexualmente bem resolvidas. A mulher moderna já admite o que gosta de fazer em sua intimidade, não deixa mais tudo nas mãos dos homens e isso nem sempre é bem visto pela sociedade. 

Portanto antes de se chocar com Damas das Camélias, Madames Bovarys e Christians Greys da ficção deveriam se incomodar com as falcatruas de nossos políticos, crimes sem solução, roubos no orçamento público que nunca foram resolvidos e outros tantos absurdos que encheriam algumas páginas de texto se os fossem descrever.  A trilogia 50 Tons de Cinza não foi a primeira e nem será a última obra literária a incomodar então que as editoras e escritores aproveitem a deixa e lancem boas obras quebrando mais tabus de nossa sociedade. Que fique bem claro: não estou dizendo para que escritores plagiem a obra, mudando nomes e profissões dos personagens principais e sim que aproveitem para quebrar outros tantos tabus que ainda incomodam e merecem ser discutidos e revistos. Cópias descaradas já existem, porém dificilmente alcançaram o mesmo sucesso de vendas que a autora E. L. James conseguiu.             

 Márcia Canêdo

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sexta-feira, 8 de março de 2013

A Presença da Mulher no Espiritismo

Por motivos que extrapolam a própria formação do planeta – na polaridade masculino/feminino dos ocidentais ou Yin e Yang do tradicional conhecimento oriental, o pólo menos valorizado foi o que corresponde à mulher e em muitos recantos do planeta continua sendo uma realidade. Até na mitologia religiosa da Gênese humana a mulher é tida como um apêndice, pois foi criada a partir de uma costela do Adão (figura que simboliza o início da raça adâmica). Aspectos mitológicos à parte, nosso interesse é a respeito do que a mulher dita moderna pode fazer por si própria e pela condição espiritual de encontrar-se hoje habitando um corpo feminino com todos os seus direitos e obrigações. Que fique bem claro: com todos seus direitos plenamente exercidos e obrigações cumpridas de forma voluntária.

Primeiro vamos ver um pouco da parte histórica da mulher:

A mulher no Antigo Testamento: Na Bíblia a mulher é sempre inferior em relação ao homem, obviamente um comportamento que denota um ‘desvio de rota’ debitado à mentalidade dos homens em nada se relacionando à vontade de Deus. Naquele tempo, a sociedade era organizada de forma extremamente machista  e a mulher está retratada no Livro Sagrado quase sempre como uma personagem inexpressiva.O patriarcado, que é o reconhecimento dos direitos do pai sobre sua família, servos, mulher e propriedade, deu ao homem, detentor da força bruta, física, também o poder sobre suas mulheres: poder de vida e morte.

O Novo Testamento - Cristo e as mulheres: Também no Novo Testamento a presença austera e sufocante do patriarcado se faz notar, por exemplo, no tratamento dispensado a Madalena, que fora confundida e retratada posteriormente como prostituta, sendo que, em nenhuma passagem dos evangelhos,isto se verifica. Essa confusão persiste até os dias de hoje, e devesse muito mais à tradição oral e o nível de educação e conhecimento das palavras do Novo Testamento pelas pessoas, em geral. A história registra em vários outros momentos que, quando uma mulher incomodava por demais, a maneira de ‘exterminá-la’ era denegri-la moralmente,rebaixando-a para a condição de herege, prostituta ou bruxa. As fogueiras da Inquisição que o digam. Jesus subverteu o tratamento dispensado às mulheres que O seguiam, tornando-as suas amigas, discípulas, seguidoras. Entre essas estavam mulheres comuns, enfermas ou pecadoras, e Jesus concedia-lhes a mesma atenção e os mesmos direitos que lhes eram negados pelos homens.

A mulher na Doutrina Espírita : E em relação à Doutrina Espírita, qual é o papel que esta reserva às mulheres? Haveria algo semelhante a uma Teologia Feminista dentro da perspectiva espírita? Em comparação com as demais religiões conhecidas dentro da tradição judaico-cristã, ela não segue a tendência das demais em atribuir às mulheres o papel de submissão, ou relegá-las ao silêncio dentro dos locais de culto, os centros espíritas. É, pois, uma doutrina muito mais liberal em relação às mulheres.
O que justifica essa atitude é justamente um dos pilares que a sustentam, ou seja, a crença na palingenesia, ou a lei do eterno retorno (reencarnação), o que, segundo sua crença, dá a oportunidade do espírito, imorredouro, estar num ou noutro sexo. Como explica as perguntas 201 e 202 de O livro dos Espíritos. P. 201. “O espírito que animou um corpo de um homem, em uma nova existência, pode animar o de uma mulher, e vice-versa?” – “Sim, são os mesmos Espíritos que animam os homens e as mulheres”.
P. 202 “Quando se é Espírito, prefere-se encarnar no corpo de um homem ou de uma mulher?” –“Isso pouco importa ao Espírito; ele escolhe segundo as provas que deve suportar. Os Espíritos se encarnam homens ou mulheres porque eles não têm sexos. Como devem progredir em tudo, cada sexo, como cada posição social, lhe oferece provas e deveres especiais, além da oportunidade de adquirir experiência. Aquele que fosse sempre homem não saberia senão o que sabem os homens”.

Neste sentido defende que não seríamos homens ou mulheres e sim que estaríamos como homens ou mulheres, entendendo-se que para a completa evolução intelectual e moral do ser humano, teríamos que experimentar as dores, os prazeres, as limitações de ambos os corpos sexuados, uma vez que o espírito não tem sexo. Estar num corpo sexuado, é, segundo a visão espiritista, uma aprendizagem necessária para a evolução do espírito que é eterno, em contraste com a vida corpórea que é perecível e passageira.
A filosofia e a moral espírita conclamam à liberdade e igualdade de direitos, pois o Espírito é dotado da faculdade de progredir, da faculdade do livre-arbítrio e da ciência do bem e do mal, não importando se este está encarnado num corpo de homem ou de
mulher.
Para a doutrina espírita, não há, portanto, distinção entre homens e mulheres, entendendo que Deus não relegaria as mulheres a uma posição de inferioridade baseada no ‘determinismo sexual’, como tantas vezes utilizado como justificativa para a ‘natural’ assimetria de poder e de oportunidades entre os dois sexos, naturalização das desigualdades, de toda discriminação, preconceito e violência que se cometeu, e ainda se comete contra as mulheres.
A natural justificativa para as desigualdades criadas socialmente para ambos, encontrou diversas justificativas, tanto as ‘científicas’, como na sentença de Freud em relação às mulheres quando diz: ‘anatomia é destino’, assim como nas justificativas de‘ordem divina’, protagonizado pelo patriarcado que incrementou o discurso religioso para oprimi-las e silenciá-las.
Na compreensão da doutrina espírita, entende-se que os excessos e abusos cometidos contra as mulheres são desvios de conduta pelo mau uso do livre-arbítrio, sustentando ainda que as mulheres não são as pecadoras, nem as infiéis, nem amorais, fracas, ciumentas, infantis ou vingativas, como entendidos no tratamento e na visão que se tinha delas na leitura dos textos bíblicos e na conduta do sacerdotado das igrejas cristãs em geral.
Os pressupostos que a sustentam: o da pluralidade dos mundos e das existências,dizem que a matéria é subordinada à vontade e às necessidades do espírito em constante evolução. Isso tem um alcance mais libertário em relação à mulher, pois se o espírito não tem sexo, tem-se na pluralidade das existências, igual chance de encarnar neste ou noutro corpo, não havendo, pois, prerrogativas de poder entre ambos. Para a doutrina espírita, todos são valorados em espírito, pois é ele quem progride, e não o corpo físico. É o espírito que, sendo eterno, único e indestrutível, é avaliado pelo bem que fez ou deixou de fazer, não importando em que corpo esteve ‘aprisionado’ em seus anos terrestres. Esclarece que é necessário para a evolução dos seres a reencarnação tanto num corpo físico de um homem ou no de uma mulher. O Espírito como realidade eterna está em constante evolução, para tanto deverá buscar o equilíbrio entre estas duas polaridades – a masculina e a feminina. Acreditamos que essa visão mais tolerante em relação ao sexo feminino, tem também outra explicação que não somente a realidade do espírito. Essa igualdade de funções e de papéis dentro da doutrina espírita reside na maneira pela qual ela se organiza estruturalmente, pois não tem uma classe sacerdotal organizada – prerrogativa de poder para os homens, o que libera as mulheres dos falíveis dogmas humanos, para a livre aceitação do trabalho e dos estudos. A situação das mulheres de outras denominações religiosas, que não têm os mesmos direitos à hierarquia do poder em suas igrejas, nem nas decisões humanas tomadas no seio da comunidade, é distinta, como sabemos.

A doutrina adota em sua moral religiosa o princípio cristão do ‘amai-vos uns aos outros’, lembrando a seus adeptos da necessidade do estudo, pois é através deste que se pode atingir as condições de aperfeiçoamento. No Evangelho Segundo o Espiritismo, o
Espírito da Verdade, assim se manifestou aos adeptos: Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instrui-vos, eis o segundo.” A importância dada aos estudos é notória quando observamos, nos primórdios desta doutrina, os nomes que ladearam o trabalho do Codificador. Eram artistas, literatos, astrônomos, filósofos, pensadores e cientistas, do peso de Victor Hugo, Ernesto Bozzano, Leon Denis, Camille Flammarion,  entre outros.
São de Flammarion – amigo de Kardec estas palavras escritas em Urânia, em que relata um mítico diálogo entre ele mesmo e a musa da astronomia, que, ganhando voz diz ao astrônomo: Saiba você que o Estudo é a única fonte de todo o valor intelectual. E o conhecimento do coração humano conduz à indulgência e à bondade; jamais sejas nem pobre e nem rico, livra-te de toda a ambição e assim de toda a servidão. Sê independente! A independência é o mais raro dos bens e a primeira condição de toda a felicidade (FLAMMARION [1889], 2004, p.39)
A doutrina espírita, portanto, antes de separar corpos e pessoas em função de seus diferentes sexos, raça ou origem, os une em Espíritos que, anseiam pela igualdade em evoluir conforme a lei de progresso e evolução, que, segundo sua crença, sujeita à todas e todos, indistintamente.




Quem são elas?

Elas sorriem quando querem gritar.
Cantam quando querem chorar.
Choram quando estão felizes e riem quando estão nervosas.
Elas brigam por aquilo que acreditam e se levantam contra a injustiça.
Não aceitam um não como resposta quando acreditam que há uma solução melhor.
Elas andam sem sapatos novos para que suas crianças possam tê-los.
Vão ao médico fazer companhia a uma amiga assustada...
Amam incondicionalmente...
Choram quando suas crianças adoecem e se alegram quando ganham prêmios.
Seus corações se quebram quando um amigo ou familiar morre, mas são donas de uma força descomunal quando nem elas mesmas acreditam que ainda hajam forças.
Sabem que um abraço e um beijo podem curar um coração quebrado.
Estão nas salas de aulas, dando as primeiras lições à infância; nos hospitais, amparando enfermos e nos esportes, arrancando aplausos.
Multiplicam-se em orfanatos, velhanatos, sanatórios e albergues, socorrendo e amparando com suas mãos operosas...
Podem ser encontradas também na lavoura, arando a terra, distribuindo sementes e fazendo a colheita...
Se a enfermidade as visita, ainda assim não se revoltam nem se desesperam. Suportam as dores com resignação e coragem.
Quando abandonadas, lutam sozinhas, sofrem caladas e dão a volta por cima.
Machucadas, escondem as feridas, disfarçam a dor e seguem em frente.
Elas estão em todos os lugares do mundo...
São de todos os tamanhos, todas as cores e formas...
Elas são as mulheres...
Elas irão dirigir, voar, andar, correr ou lhe mandar um e-mail, para mostrar o quanto se importam com você.
Uma mulher faz mais do que dar a vida. Ela traz alegria e esperança e seu coração faz o mundo girar...
As mulheres são adeptas da compaixão e sabem cultivar ideais...
A mulher, tão desprezada pelo homem ao longo dos milênios, hoje assume o lugar que lhe pertence nos cenários do mundo.
Agora o homem reconhece que, se ele é o cérebro, a mulher é o coração. O cérebro produz luz, o coração, o amor.
A aspiração do homem é a suprema glória, a aspiração da mulher, a virtude extrema. A glória traduz grandeza, a virtude traduz divindade.
O homem é capaz de todos os heroísmos e a mulher é capaz de todos os martírios. O heroísmo enobrece e o martírio sublima.
Se o homem é um oceano, a mulher, um lago. O oceano tem a pérola que o embeleza, o lago tem a poesia que o deslumbra.
Enquanto o homem é a águia que voa, a mulher é o rouxinol que canta. Voar é dominar o espaço, mas cantar é conquistar a alma.
O homem tem um farol: a consciência; a mulher tem uma estrela: a esperança. O farol guia, a esperança salva.
Enfim, o homem está colocado onde termina a Terra e a mulher, onde começa o Céu.
E por mais que o homem seja forte e invencível, enfrente ventos e tempestades, é nos braços de uma mulher que ele procura paz e segurança.

Redação do Momento Espírita com base no texto Mulheres, de autor desconhecido e em poesia de Victor Hugo.

Referência:  Revista Brasileira de História das Religiões – Ano I, n. 3, Jan. 2009 - Dossiê Tolerância e Intolerância nas manifestações religiosas

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terça-feira, 5 de março de 2013

Acadêmicos analisam ética e poder em 'As Crônicas de Gelo e Fogo'


Divulgação
Livro reúne textos sobre ética e poder em 'As Crônicas de Gelo e Fogo
Livro reúne textos sobre 'As Crônicas de Gelo e Fogo'
"A Guerra dos Tronos e a Filosofia" analisa os dilemas apresentados na obra de George R. R. Martin por meio do pensamento de filósofos como Hobbes, Platão e Maquiavel.
O livro, organizado pelo professor de filosofia Henry Jacoby, é uma coletânea de textos de diferentes intelectuais sobre ética, poder, moral, metafísica, virtude, felicidade, determinismo, livre-arbítrio e, é claro, política.
"Filósofos teorizam sobre política há pelo menos 2.500 anos", escreve Greg Littmann no artigo "Meistre Hobbes Vai a Porto Real". "Uma das formas de testar essas teorias é levar em conta quando elas funcionam bem em situações fictícias e hipotéticas".
A série "As Crônicas de Gelo e Fogo" se desenvolve em um mundo onde reis, rainhas, cavaleiros, magos e renegados entram em conflitos que duram décadas. Cada uma das casas apresenta características de conduta, armas e táticas de batalha peculiares.
Para Marcus Schulzke, em "Jogando o Jogo dos Tronos: Algumas Lições de Maquiavel", "Cada um emprega a sua própria estratégia para alcançar um objetivo em particular, mas fica claro que algumas dessas estratégias são mais bem-sucedidas do que outras".
Famoso pela obra "O Príncipe", Nicolau Maquiavel também escreveu "A Arte da Guerra"livro homônimo ao de Sun Tzu.
Apesar de ser uma ficção, os personagens complexos de Martin apresentam diversas falhas de caráter e são levados, com frequência, por situações que escapam do controle de apenas um indivíduo, características que resistem ao maniqueísmo.
O universo começou com "A Guerra dos Tronos", e ganha mais fãs a cada dia. O sucesso dos livros levou a história para a TV. A saga foi adaptada em um seriado produzido pelo canal HBO.
Fonte: Folha Uol 

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segunda-feira, 4 de março de 2013

O lado oculto da luz




Você já deve ter ouvido falar que o lado oculto da Lua é o lado que nós não conseguimos enxergar a partir da Terra, uma vez que a translação e a rotação lunares possuem o mesmo tempo de duração.  Isso não significa, no entanto, que esse lado que não conseguimos enxergar fique no escuro ou, muito menos, que não exista. Pelo contrário, o lado oculto é banhado pela luz do Sol durante o período da lua nova. 

É possível que você também saiba que, devido à força gravitacional que exerce sobre a Terra, a Lua influencia o volume, o fluxo e refluxo dos líquidos e das águas existentes na Terra, no interior dos vegetais e no corpo humano. As marés dos oceanos, dos rios, a seiva dos vegetais e o fluxo de sangue e de líquido no organismo sofrem, portanto, uma grande influência da Lua, na medida em que ela vai se movimentando em relação ao Sol. Com isto a vegetação, a agricultura, a pesca, o clima e até a saúde se tornam fortes áreas de influências da Lua.

O que talvez você ainda não tenha ouvido falar é que todos esses aspectos da Lua podem nos ajudar a entender alguns fenômenos complexos que observamos no mundo corporativo, a começar justamente pela influência que as organizações atualmente exercem sobre a Terra. Estima-se que as empresas sejam responsáveis por 50% do PIB mundial. Outra expressão clara dessa influência é que, entre as 100 maiores economias do mundo, 51 são corporações e apenas 49 são países.  Para ficar entre as que estão entre as 50 economias mais ricas do planeta, o Walmart possui um faturamento maior do que a Noruega, que ocupa a 25ª. posição em geração de riqueza. A Exxon Mobil bate a Tailândia, 30ª economia do mundo. A Chevron deixa a República Checa no chinelo.  A Philips é maior do que o Paquistão. Concentração de riqueza, como todos sabemos, gera poder em praticamente todas as esferas decisórias. É a Lua no céu e as empresas na Terra.

As organizações também têm seu lado oculto – não, não estamos falando de caixa dois ou de segredos industriais, mas do lado que cada organização tenta esconder não apenas do mundo externo, mas principalmente de si mesma.  Na verdade, podemos observar que muitas organizações já nascem com um lado oculto, enquanto outras o criam durante seu processo de amadurecimento. Esse lado varia de empresa para empresa, mas parece sempre estar relacionado à clássica e já manjada visão dualista de mundo. Por exemplo, existem organizações que atuam dentro de uma hierarquia bastante rígida, com papéis claros estabelecendo quem faz o que e quem obedece a quem. Essas organizações se movem num mundo regido pelo que nos separa. Líderes convivem com líderes, e liderados convivem com liderados. Esses grupos dividem-se em subgrupos por departamento, por função, por faixa etária - os da geração Y e os da geração X, as secretárias, os trainnees. Cada um tem sua turma. É como se não houvesse nada capaz de unir a todos. O que fica oculto, neste caso, é justamente essa percepção dos aspectos que nos unem. 

Líderes e liderados têm direitos e deveres diferentes, mas também têm histórias pessoais, sonhos, sentimentos, experiências que, reveladas, possivelmente, seriam capazes de transformar muitos desconhecidos em grandes amigos. No entanto, “estamos aqui para trabalhar” e a rigidez do que nos separa é tão forte que esse outro lado simplesmente fica oculto, perdido em algum lugar onde a luz não chega. 

Por outro lado, para prosseguir no mesmo raciocínio, existem empresas que têm uma clareza enorme do que nos une. Também são facílimas de identificar, pois demonstram abertamente uma enorme preocupação com as pessoas, com o meio ambiente, com a comunidade. Procuram construir uma marca respeitada, inclusiva, próxima e, assim, acabam se destacando entre as melhores empresas para trabalhar, as mais admiradas pelos consumidores e as mais invejadas pelos concorrentes. Esse tipo de organização trabalha como se fosse possível um mundo regido apenas pelo que nos une. 

Uma amiga minha, responsável pelo RH de uma dessas organizações, explicitou que o que movia essa empresa era o medo de ser “como as outras”, ou seja, tornar-se refém da síndrome de casa grande e senzala. Ela se referia às empresas guiadas pelo que nos separa, onde manda quem pode, obedece quem tem juízo. No entanto, na medida em que ela própria ignora - evita - esse aspecto em sua cultura, também acaba refém de uma outra síndrome ainda mais perigosa: a síndrome do socialismo utópico, que atua a partir da crença de que as pessoas são iguais. E a razão de essa crença ser ainda mais perigosa é que a expectativa sobre uma empresa que atua a partir do que nos une é infinitamente maior do que a que se projeta sobre a que opera do outro lado. Espera-se muito pouco de quem age sob a égide mecanicista, mas dos que se apresentam como humanistas, a estes, só resta a perfeição!

Então, se o funcionário administrativo pode se ausentar em seu horário de expediente para resolver um problema pessoal, nada mais natural que o operário de chão de fábrica faça o mesmo. O problema é que, se um escritório pode ficar vazio por algumas horas, uma linha de produção não pode parar porque alguém precisou dar uma saidinha. As coisas não são tão simples assim. Quem trabalha em produção e quem trabalha no administrativo têm, sim, direitos e deveres diferentes. Não aceitar essa condição é criar um poderoso e perigoso lado oculto. 

“Pensamento positivo gera pensamento negativo, simplesmente porque toda ação provoca sempre uma contra-ação”. Esta frase não me sai da cabeça, desde que a ouvi durante a aula especial na Escola de Diálogo de São Paulo proferida por Patrick Paul, doutor em medicina que há mais de 40 anos se dedica ao estudo dos sonhos e a relação entre psicologia e espiritualidade. Ela serve tanto para mim quanto para as organizações. Ambos estamos cultivando nossos lados ocultos quando nos deixamos levar apenas por um dos lados da historia. Qualquer semelhança com os princípios que regem o diálogo não é mera coincidência. A principal finalidade do diálogo é justamente ampliar a visão sobre determinado assunto, algo só possível quando incluímos os diferentes pontos de vista que os cercam. Portanto, o caminho mais curto e eficaz para lidar com os lados ocultos que vamos criando ao longo da vida é conversar com quem, em função de sua posição diferente da nossa no mundo, consegue enxergar aquilo que não conseguimos ver – não apenas conversar, mas, mesmo que não sejamos capazes de olhar com os olhos do outro, aceitar sua visão de mundo. Ao fazermos isso, nosso mundo cresce junto.

A palavra luz significa luminosidade, mas também representa um dos atos mais maravilhosos da vida, o nascimento. Quando não conseguimos entender alguma coisa, pedimos a alguém que “nos dê uma luz”. Diz-se de quem alcançou um determinado grau de evolução espiritual que é um iluminado. Luz, em primeira e última instância, é consciência. Colocar luz sobre algo é, portanto, o mesmo que tomar consciência do que antes estava oculto. 

O único momento em que a Lua fica toda escura ocorre quando a sombra da Terra impede que os raios solares a iluminem. Aí então acontece o eclipse total lunar, prova absoluta de que a Lua não possui luz própria. Precisa do Sol para ser revelada.  Organizações não possuem luz própria. Precisam das pessoas para serem reveladas. Mais do que isso, são as pessoas que dão luz às organizações, assim como cada diferente olhar sobre elas é como um raio de Sol sobre a Lua: quanto mais olhares uma organização for capaz de incluir, tanto mais iluminada ela será.



Texto: Fábio Betti Salgado (www.fabiobetti.com.br), sócio-fundador da Salgado & Serapicos, iniciou na área de comunicação em 1988 na Johnson & Johnson e, depois, especializou-se em comunicação interna na Dow Química.  



Fonte:http://www.aberje.com.br

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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Conservadorismos, manipulação e medo




Sempre que aparece no horizonte uma mínima possibilidade de mudança no status quo e, ainda que essa modificação se apresente como benéfica para grupos de pessoas tradicionalmente preteridas de seus direitos mais básicos, surgem sempre, como contraponto, os argumentos conservadores. Os defensores da não-mudança aparecem, então, dispostos a provar, por meio dos mecanismos retóricos que lhe são peculiares, que as inovações propostas são inúteis, equivocadas ou notoriamente danosas à sociedade.
Parece-me tarefa das mais difíceis definir, em linhas precisas e universais, o que vem a ser o pensamento conservador ou quais, exatamente, seriam suas premissas. Se, no entanto, eu tivesse que me arriscar a esboçar um aspecto constituinte desse tipo de mentalidade, diria que o conservadorismo tende a mesclar um permanente mal estar com a situação presente com um receio gigantesco de qualquer mudança com algum traço de ineditismo. Por isso, creio, o pensamento conservador ora aponta para o imobilismo, para a permanência das coisas em seu atual estado, ora para o regresso, com a adoção de fórmulas conhecidas que, alterando a situação política e social atual, pretendem apenas recuperar ou reavivar no presente, um modelo ou referência pretérita.
Os conservadores, penso, são pessoas essencialmente desencantadas com a humanidade e descrentes, em maior ou menor medida, do protagonismo histórico da espécie humana nas transformações culturais ou sociais. Esse desencanto os leva a crer que toda e qualquer mudança pensada por e para as pessoas são farsas premeditadas para servir aos apetites egoístas de uns poucos ou, quando muito, tendem sempre a se desnaturar, gerando uma nova situação sempre pior do que anterior. Talvez devido a essa descrença, a esse melancólico desencanto, são os conservadores presas fáceis da atemporalidade e da segurança dos dogmas religiosos e de teorias econômicas, históricas e sociológicas que, despindo a humanidade de qualquer autonomia sobre o seu destino e suas vontades, elegem, como força motriz, das mudanças alguns entes abstratos como, por exemplo, uma divindade ou a “mão invisível” do mercado.
Muitas vezes, a crítica conservadora, quando bem embasada, pode ajudar a prevenir a sociedade dos possíveis danos oriundos de mudanças que, por serem ou parecerem urgentes, acabaram sendo elaboradas sem que se sopesassem os possíveis danos colaterais de sua implementação. Na verdade, o conservadorismo aguçado, elaborado e crítico funciona como um contrapeso que, se não é sempre bem visto por aqueles para quem as mudanças urgem, ajudam, pelo menos, a enriquecer e lapidar propostas que podem alterar beneficamente a sociedade. O medo dos conservadores, em sua verve detalhista e dialógica, pode sim, por tudo isso, contribuir bastante para a solidificação e esclarecimento de mudanças necessárias. Nesse sentido, dar ouvidos a certas posições conservadoras é parte do diálogo democrático e não se está a dizer, em nenhum momento, que opiniões de espectro conservador devam ser sempre descartadas.
Há, porém, uma gama de situações e de contextos sociais, jurídicos e culturais em que os conservadorismos, muitas vezes de forma irrefletida, atuam como álibis para omissões estatais criminosas ou como endosso para situações de fato notoriamente injustas. Diante de questões muitas vezes discutidas a exaustão e que pedem mudanças urgentes na cultura, nas leis e nas práticas sociais, certos conservadorismos, usando de catastrofismos, teorias conspiratórias e falácias consequencialistas absurdas, acabam agindo como avalistas para a perpetuação de violências, injustiças e indignidades. São momentos em que os aspectos mais saudáveis do medo ou a desconfiança relativa ao novo, dão lugar à sua face irracional, patológica e nociva, beirando o delírio, a negação da realidade e dando vazão a uma discussão que, extrapolando o âmbito da racionalidade política, resvala para a guerra mais suja  contra os direitos alheios.
Embora possa parecer que eu estou exagerando, pode-se perceber, na contramão das discussões mais atuais, das estatísticas e mesmo da realidade sensível, um afã negacionista, de cores nitidamente conservadoras (que têm por intuito impedir mudanças em diferentes campos) sobre situações gravíssimas e que merecem pronto remédio legislativo, político e pedagógico.
Nega-se a existência de racismo no Brasil para impedir a implementação das políticas de cotas; nega-se que nossa cultura tradicionalmente machista acabou relegando às mulheres a um status de inferioridade cultural e de sujeição à violência alarmante; nega-se a existência de preconceito contra os homossexuais brasileiros muitas vezes na mesma frase em que se prescreve a eles ou elas limites para suas condutas e afetos para impedir a criminalização da discriminação por orientação sexual; nega-se o componente social da violência e da criminalidade ao mesmo tempo em que se clama por penas mais duras, mais penitenciárias e um estado mais policialesco. Nega-se a tudo, desenfreadamente, apenas para que as coisas permaneçam como estão, para que as mudanças, por mais necessárias e urgentes que sejam, simplesmente não venham.
Ao lado das negações, criam-se também teorias, invertem-se os pólos, transformam-se as minorias de direitos em algozes da liberdade.  Acusam as feministas de odiarem e de desejarem escravizar os homens; os negros de quererem para si privilégios e não direitos; os homossexuais de integrarem uma misteriosa maçonaria com o intuito de ceifar a religião; as minorias, de forma geral de tolherem a liberdade de expressão de comediantes que regurgitam preconceitos abjetos.
Em todas essas atitudes, percebe-se que o medo irracional do novo fala mais alto do que a disposição ao diálogo, ao entendimento dos anseios e necessidades do outro que é visto, aqui, como uma ameaça. Nem sempre o medo, aqui, deve ser entendido como um sentimento ingênuo, porém. Muitos desses argumentos, repetidos muitas vezes por pessoas que genuinamente temem as mudanças, são formulados por pessoas que têm interesses mais escusos e personalistas na conservação do atual estado de coisas.
Devemos nos lembrar que o medo é um campo fértil para a manipulação, sendo fartos na história mundial os exemplos em que o direcionamento dos receios da população foram direcionados contra um “inimigo” inventado por uma retórica catastrófica com o prosaico intuito de angariar ou manter nas mãos de alguns poucos, poderio político e econômico. É  a forma como operam as ditaduras, as potências imperialistas, os líderes carismáticos e, certamente, é algo a se ter em mente quando alguém lhe apresenta, como argumento para a manutenção de um certo status quo, uma desculpa fácil ou um inimigo demasiadamente ardiloso que empreende mudanças com o escopo único de lhe prejudicar.
Dito isso, é necessário que se faça aos conservadores um apelo importante: nunca deixem que o seu medo, por vezes justificado, de mudanças, sirva como obstáculo a um diálogo aberto ou, o que é pior, como um fator de desumanização daqueles que clamam pelo novo.
** Pedro Munhoz (@pedromunhoz5) advogado e historiador. 
Fonte:http:www.bhaz.com.br

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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Ser promoter não é ser relações-públicas. Ou é?


Desde que assumi a presidência do Conrerp no Rio de Janeiro, tenho recebido várias denúncias em cartas protocoladas e e-mails de todo o Brasil. As acusações são para o Conselho agir contra profissionais de outras áreas que se intitulam “promoters” e que a imprensa insiste em chamar de relações-públicas. São mensagens indignadas, mas que merecem uma pesquisa e uma resposta, porque vêm de bacharéis em Relações Públicas, registrados no Sistema Conferp/Conrerps regionais, que cumprem suas obrigações e seguem um código de ética que tem força de lei. 
O Rio de Janeiro é pioneiro na formação destes profissionais, que se multiplicaram por todo o país, conhecidos por cultivar listas e agendas de famosos. Eles são chamados pelas organizações e empresas para rechear de presenças notáveis suas festas, shows, salas Vips, HCs e camarotes. Essa ação faz com que jornalistas e fotógrafos, na sua cobertura, chamem a atenção para esse ou aquele evento que se queira estar nas colunas sociais, na mídia das celebridades, nos famosos “quem é quem” da sociedade e das corporações públicas e privadas. Este comparecimento ilustre e sua cobertura pela mídia acabam por tornar o evento um grande sucesso e a repetição no ano seguinte é dada como certa. Repetiu mais de duas vezes, o evento entra para o calendário social e se torna, inclusive, fonte de renda para muitas pessoas que trabalham no seu entorno. Um exemplo disso é a multiplicação dos Bailes de Carnaval que estão se tornando mais uma fonte de renda e atração para o turismo durante o reinado do Momo.
Esta “lista”, construída a duras penas e plumas, é o verdadeiro capital destes profissionais que usam seu network e sua influência para coroar os eventos das cidades. Quando de grandes eventos, muitas vezes, o promoter, responsável pelas presenças desse ou daquele camarote, esconde-se dos inoportunos que já foram ou querem ser futuras celebridades para conseguir “postar” seus nomes nestas “listas” e conseguir um convite.  Seu perfil é normalmente confundido com um relações-públicas porque são pessoas que cultivam seu DNA de conciliador, agregador das diversidades e gestor de relacionamentos. Aquele que sabe e consegue reunir em um mesmo local, em clima de festa ou confraternização, pessoas das mais diversas áreas, procedências, tribos e galeras. Promoters podem ser relações-públicas, advogados, publicitários, jornalistas por profissão ou simplesmente promoters. Dizem que sua origem está nas pessoas nascidas em famílias influentes porque representavam sua tradição na sociedade ou no setor produtivo e que começaram a promover festas beneficentes. A promoção também se estendeu para a produção do evento, em alguns casos.
Normalmente, quando recebemos esse tipo de denúncia que se chama “apropriação imerecida da profissão de RP”, enquanto Conselho Profissional, nós somos obrigados por lei a investigar a situação. Vamos aos clippings da mídia, aos sites ou blogs dos profissionais, às correspondências trocadas entre promoter e contratantes e muitas vezes diretamente aos promoters para verificar se a terminologia RP está sendo utilizada indevidamente. Se sim, procuramos informar e esclarecer as partes para que se adequem à legislação. É uma oportunidade para o profissional e para o Conselho. Se não está registrado porque não é bacharel em Relações Públicas, pode, mesmo assim recorrer a Resolução Normativa no. 11 de 1987, do Sistema Conrerp, criada pela saudosa profissional Vera Giangrande, cujo objetivo é o de regularizar parcialmente este tipo de pendência. Essa resolução disciplina o registro de Pessoas Jurídicas que exploram atividades de relações públicas em assessorias, consultorias e agências ou empresas de comunicação ou promoção social.  A concessão de Registro de Pessoa Jurídica - RPJ se dá mediante a aprovação em reuniões plenárias quinzenais dos conselheiros do Conrerp regional durante a  análise da apresentação do processo de solicitação de ingresso, bem como o contrato de trabalho de pelo menos um profissional registrado no Conrerp, como responsável técnico pelas atividades de Relações Públicas desenvolvidas naquela empresa.
Se não se adequar e não se interessar em cumprir a lei e respeitar a profissão, nada mais resta ao Conrerp do que seguir seu regimento e multar o profissional que está se utilizando de um chapéu que não lhe compete. Este é o retorno que um Conselho Profissional deve dar ao seu corpo de registrados. Mas estamos cada vez evoluindo mais para buscar um ponto comum e afim onde todos poderão usufruir do pertencimento a um Conselho Profissional que lhe dará a segurança de um código de ética legal para seguir.  E aos contratantes e à Sociedade a mesma tranquilidade para contratar. 

Texto de Lala Aranha- Relações-públicas pela FAMECOS/PUC-RS, é consultora da Teia de Aranha Comunicação.

Fonte: http://www.aberje.com.br/ 



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